15 outubro, 2010

posso perder minha mulher minha mãe...

O meu cigarro apagou
eu vou dançar um rock and roll

dancei tanto
que meu pulmão de fumante não aguentou

14 outubro, 2010

simples 1.2

Se eu te falasse tudo
(e fôssemos de sentimentos comuns)
seria mais que esperado


então eu



_

30 setembro, 2010

ousa

E então ela se fez bonita
como há muito tempo não queria ousar
Como embonitar-se não conseguiu,
passou a achar ousadia babaquice

23 setembro, 2010

simples 1.1

ah, pra você saber,
hoje senti saudades do seu papel de parede
e das roupas no varal e o "quão bonito ficam essas roupas com esse céu e esse... pé de flor?"

11 setembro, 2010

Neutralidade

Neutra

pluma

branca



Neura

pruma

blanca

como tus ojos

06 setembro, 2010

Ditas ou escritas

Não há quem não se apaixone por palavras. Elas não tem manias, não cheiram mal depois de um dia inteiro embaixo do céu ensolarado dos trópicos, não se agarram a você fazendo de você a última única pessoa do mundo, elas não cagam. Qualquer defeito ou erro ou tique, nas palavras viram charme; o amargo se transforma em caráter.
Não tem como não se apaixonar por palavras.

31 agosto, 2010

é que eu tava com medo da chuva

É que eu tava com medo da chuva, disse A criança enquanto olhava para os sapatos sujos de lama.
Não era, com certeza, nada convincente que o medo da chuva trouxesse da rua A criança, que saíra de casa limpa e perfumada, com lama até os cílios e não talvez até mais perfumada e seca do que tinha saído. Mas talvez, pois se pode esperar tudo das pessoas, mesmo criança e ainda mais dA criança; houvesse um pouco de verdade no medo da chuva, e tão talvez quanto, já bem cedo Sua criança estava aprendendo o que era impulso.
A mãe disse um pouco sobre para o marido, sobre como será quando A criança crescer e ter medo de amar, do primeiro emprego e de confiar nas pessoas. O pai disse pra deixar de mãezisse e que aquilo era normal, coisa de criança etecétera e tal.
Mas mãe sabe das coisas, e esta, A mãe, sabia o quanto isso tudo era coisa de adulto.

21 agosto, 2010

de lá de fora

Olho pela janela porque busco algo pra me tirar daqui.
O aqui é a solidão.
você está lá fora desfilando seu andar delicado enquanto eu

ah. deixa o eu. deixe-me eu. deixe-me seu. porque olhar pra fora e ter ver não minha é um bem estar do não estar confortável e eu gosto.

então, bem, eu olho ainda. entre uma frase, uma letra ou rima. Quem sabe assim eu me acostumo com o não ser livre daqui de dentro, sendo livremente seu escritor descritor, se é que isso é possível.

deixe-se meu. se é que isso é possível daí de fora.

15 agosto, 2010

Do blues

Quando eu ouço blues sinto como se estivesse flertando com você. Sim, um flerte inocente de tão safado. Uma delicadeza que escorre em sensualidade, gota a gota preenchendo cada nota bem marcada do contra baixo: tan tan tantan! Nós dois assim, dançando com o corpo pelo corpo, com a intenção pelo tesão, excitando nossos pelos pelas paixões facilmente controladas pela carne.
Ouvindo blues eu sano essa falta. Essa música rouca, levemente gaita, facilmente coito.
Ouvindo o blues danço com os quadris uma dança que muito bem poderia ver-se feita entre quatro paredes escuras/meialuz. O tal do mississipibaby se transforma em nossa cama, nosso sofá ou nossa mesa da cozinha, por que não?
blues toca na cabeça facilmente quando a gente quer.

14 agosto, 2010

adiando pra depois

adiar
dor
dói

é des
necessidade
do que não foi

Onde e como fazer teatro em São Carlos?

a Anna Kuhl, nossa ruiva produtora teatral dá as respostas aqui !

10 agosto, 2010

27 julho, 2010

Pães caseiros

Ela fazia poesias e pães caseiros. Ela usava a escada pra subir no telhado e sua mãe gritava saia já daí. Ela ouvia Bach e Brahms. E ela mentia. Ela mentia diariamente, uma aqui pra remendar um fato, outra ali pra não descobrirem a primeira mentira. E uma terceira pra juntar a primeira e a segunda de forma coesa. Ela não era nem um pouco coesa, chegava a ser hermética porque tinha orgulho de si mas não conseguia se aceitar o suficiente errante e pedante. Mais difícil ainda era conviver com a decepção dos outros em relação a ela, então ela mentia. Até que um dia, e foi um dia doloroso, ela magoou profundamente e exatamente pela mentira. Ela chorou, teve pena do magoado, teve pena de si mesma e subiu no telhado pra olhar as estrelas mais uma vez. Prometeu que nunca mais mentiria, nunca mais subiria na escada pra olhar as estrelas contra a vontade da mãe e passaria a escrever sobre coisas de verdade, não mais as ilusões de castelos e príncipes que ela nunca teria enquanto construísse um feudo cujos muros eram de mentira e o Senhor era ela. Desceu as escadas, foi pra máquina de escrever e escreveu um, dois e três dias inteiros a fio. Voltou pra primeira página e leu tudo. Releu, Releu. E chorou agora mais do que da vez da mágoa da mentira. Chorou por meses a fio. A sua escrita, sua vida, sem mentira, ela era tão pura que dava vergonha de ler, de viver.

22 julho, 2010

Compulsão

compulsão
de ter algo
aqui e agora
é vontade de artista
de expressar-se
sem demora
com
pulsão

21 julho, 2010

Eu morro

Tem susto que faz a gente lembrar que também morre.

Apesar de tudo, e além do mais, a gente também morre.

14 julho, 2010

do tema recorrente, outra vez mais uma

de tempos em tempos
me atenho a contar
um qualquer sobre as horas

nunca me atento
ao segundo à frente
de primeiro momento
disso sei, digo: que bosta
mas daqui a pouco, tão logo durma
volto a ele, aposta?

12 julho, 2010

Lucidez

"(...)Afirmam os dicionários que a testada é a parte de uma rua ou estrada que fica à frente de um prédio, e nada há de mais certo, mas também dizem-no pelo menos alguns, que varrer a sua testada significa afastar de si alguma responsabilidade ou culpa. Grande engano o vosso, senhores filósofos e lexicólogos distraídos, varrer sua testada começou a ser precisamente o que estão a fazer agora as mulheres da capital, como no passado o haviam também feito, nas aldeias, suas mães e avós, e não o faziam elas, como não o fazem estas, para afastar de si uma responsabilidade, mas para assumi-la. Possivelmente foi pela mesma razão que ao terceiro dia saíram à rua os trabalhadores da limpeza. Não traziam uniformes, vestiam à civil. Disseram que os uniformes é que estavam em greve, não eles."

(de Ensaio sobre a lucidez )

10 julho, 2010

fome

Fome de
dela de ele
fome de gente
que me surpreende
fome de gente
que me arrebente
eu tenho fome de gente
e por gente
quero ser comida
mastigada
deglutida
pra gente quero ser dada
por gente quero ser perdida
tenho fome de gente
que por mim
não possa ser medida

que nos foi

o corpo mole,
des
cende

de mim mesma
um quase ser, que
quase sente

porque nossa música já tá riscada no disco
mas eu ouço repetidamente
porque ela só se repete nos pontos principais
pra deixar bem claro
tudo o que eu não queria ouvir
mas ouço
re
petidamente
ela gritando cantante
re
pedindo
o que nos foi

06 julho, 2010

Choque

Quatro meninas dos olhos seguem-no da esquerda, lentamente, até a direita.
Fala polissilabicamente, monossilábicos são os dois. Consequentemente também não há pretensão nas quatro meninas. De um lado para o outro.
Lentamente.
As palavras dispensadas no ar por ele são rapidamente captadas pelos dois. As quatro pupilas se dilatam e se contraem de acordo com cada nuance cerebral que cada palavra provoca. Ele não usa parcimônias para dispensar palavras no ar. Com toda parcimônia são eles que não deixam palavra alguma ser perdida para o ar.
Rapidamente.
Os movimentos dele são decididos e impactantes de forma que os dos dois parecem acontecer dentro de uma bolha gelatinosa . Portanto, já é de se esperar quem vai vencer ao choque. No entanto, nos atemos a obervar o momento.
Até o choque.

30 junho, 2010

quem não se é (I)

Não há o que se diga, é fato: Não tem lugar pra mim aqui.
Nem sei se o lugar é pequeno ou eu grande - sem grandezas, sim? - mas não dá pra viver assim, de pé em pé que não vira nem dá pé.
Eu não caibo em mim. E tão insuportável quanto a constatação é tentar algum remédio no passado. Quando era criança vestia as roupas do meu pai e brincava de ser outro e outros. Vendo que ser outro era melhor, coloquei todos dentro de mim e agora, Cá estou eu cuspindo gente pelos olhos enquanto a boca me mata a mim.
Tinha cores fortes que só vi mais uma vez depois de adulto, considerando psicotrópicos viáveis. Tinha cheiro de pimentão cozido. Tinha areia no corpo todo. e pés sujos. ainda tem.
Falar de infância é duro. Deve ser por isso.
quem não se é tem dificuldade de aceitar já ter sido.

26 junho, 2010

I

o nada
não se cala
é barulho ensurdecedor
de puro silêncio
que não pára

22 junho, 2010

Tim 1970

enquanto ainda tiver
o sol de lá fora brilhando as cores daqui do quarto
um livro na cama
uma cerveja na geladeira
e o Tim Maia 1970 tocando no rádio
ainda acho que posso sair da cama
sem tanto pesar

Apesar de eu não gostar da palavra coisa

Acontecem assim as coisas do dia-a-dia.
Um tal não se sabe onde, sempre correria. Um tal momento raiva, outro alegria.
Um momento de vez, uma vez de doer, outra doar - como o poeta dizia.
Alguém que você olha mas esquece por hoje, quem sabe em outro vire poesia...
Acontece o fato que te tira da mania, depois passa
também volta a ser fria.
Assim acontecem as coisas do dia, apesar de eu não gostar da palavra coisas,
tem dias que só ela explica
as coisas todas que abrem caminhos, pelos quais eu não iria.

20 junho, 2010

ouvir Billie Holiday
noites e sensações adentro

nem o frio de lá fora
me gelam esse momento