10 Fevereiro, 2010

Quem sabe?

Quem sabe amanhã eu aprendo
terminarei enfim com essa mania
acabo com essa excêntrica boemia
tomando, como diz a mãe, um tento

Quem sabe um dia ter agenda
esquecer os imãs e a geladeira
aquecer de madruga a mamadeira
saber o que querem que eu aprenda

quem sabe um dia ter namorado
e deixar a profissão namoradeira
porque dizem que dou pra sapateira
e esse papo já tá me soando chato

e quem sabe um dia, seria feliz
pensar menos confuso e denso
pra poder falar tudo que penso
e gritar aos pulhas o que quis

Ah, veja só se não seria bonito
se antes ainda de virar bacana
antes ainda de entrar em cana
eu lesse menos o livro maldito

04 Fevereiro, 2010

Papéis livres

Olhando os dois assim nem parece muita coisa. Mas os braços cruzados de um combinam com as pernas estendidas do outro. Os olhos fechados de um combinam com a boca atenta do outro. E até as roupas, com as quais não estão. Olhando-os assim nem parecem. Olhe para a esquerda. A mesinha de cabeceira guarda, entre cadernos e livros, versos livres com palavras descompostas pra serem só deles. Lamentos e intenções regadas de noites saudosas.
Entre nós existe aquela vida
um mínimo senso atento
do quase medo da partida
E foi sem despedida, sem espera e sem guardados. Estes que geraram grandes achados: um pedacinho de papel livre que escapa do livro. Um quase cheiro conhecido que passa despercebido na rua e para o qual outro se volta e não encontra mais. A ficar na dúvida se foi imaginação.
Espero com você o dia
em que tudo que façamos
se vingue da monotonia
Não que vivam quietos a vida longe. Não que se esperem para o jantar. Nem que se esqueçam de em algumas noites, dois vinhos, lembrar.
Quando ventou a noite que você saía
nem meus poros, nem meu corpo e eu
entregamos o total em demasia.
Até que a música enlace a voz macia outra vez. A testa espalhada de suor, os braços cruzado e as pernas estendidas. A cabeça se curvará cansada de noites mal dormidas. Encontrará o velho ombro direito endurecido das escritas.
Porque nós
éramos cordas
cheias de nós

02 Fevereiro, 2010

Na grama

Dois deitados na grama. Lua cheia.

- Sabe qual é a sensação?

Coçando-se:
- Hm Hm...

sorrindo:
- Uma coisa assim...

tirando uma formiga que subia pelos pés:
- Boa?

- Assim... Uma sensação... Sublime! Sabe?

Ele pensa por 53 segundos.

- Não sei não.

- Mas você pensou.

sem respostas, continua.
- Se você pensou, já é.

matando um pernilongo com uma palma, cara de nojo do sangue que fica nas mãos:
-Não foi sublime não. Foi... - diz entortando a boca, com certo desprezo - Foi.. só dúvida.

- Então!

Coçando-se:
- Ah, tá.

- Poxa, você não entende. Não entende a profundidade.

Demora mais 15 segundos. Mata mais um pernilongo.
- É. Não entendo não.

- Tenta! É uma cois...

- Vamo embora?

- Puta merda.


não há luar romântico que resista à grama.

27 Janeiro, 2010

Por hoje

Você pode ficar assim um bom tempo. Um tempo bom, com a cabeça afundada entre meus seios enquanto eu falo sobre algumas coisas e você se amolece sonolento com o vibrar do meu peito que por minha boca se pronuncia. Você pode ficar por hoje, enquanto rimos e nos afundamos no colchão velho e nos exprimimos por olhares enquanto nos esprememos entre quatro paredes. Pode vir para umidecer minha pele, secar minha boca e desatar meus cabelos. Ficar por hoje, pela noite e pela manhã chuvosa que guarda nosso sono sem sonho, ou conversar sobre as belezas que só os artistas podem ver. Acendendo o meu, o nosso, que nos faz filosofar sobre o insustentável peso da margarida na mesa, já a ver a mesa, intacta, entortar-se à ela humildemente. E em nossos devaneios a margarida se ri soberana e murcha.
Venha e fique pela noite, pela manhã e pela tarde. Mas por hoje. Porque nossa cama também não consegue sustentar o peso dos nossos devaneios.

26 Janeiro, 2010

mas tão, tão pequeno

tão pequeno que não cabe em uma linha

25 Janeiro, 2010

escolha

O que eu faço?
ou
O eu que faço
ou
Eu que o faço

é só trocar aquele ali aqui e pronto

Preenchimento total

A cabeça assim, inclinada
os acenos de sins e nãos
e o vestido florido
as mãos cruzadas
e os olhos atenciosos
os chinelos saindo dos pés
e os pés angulando-se
o sorriso sereno
e a risada histérica
o rosto e o cabelo que mentem a idade
e as palavras que delatam
com o olhar de quem sabe do que
a voz forte
a voz terna
e os movimentos harmonicamente entrecortados

o preenchimento total da cadeira larga...

ficar ao lado dela
é o preenchimento total de imagens na minha memória

22 Janeiro, 2010

momento tão

Certos dias nenhuma ideia vira frase, nenhuma frase se conecta com outra e nenhum texto vinga.
A melhor coisa é beber um conhaque olhando o céu, sentindo muito, arrependida de não escrever sobre tal momento tão



quem sabe até ouvindo Child in time do Deep Purple

21 Janeiro, 2010

pêlo a pelo

Derrama

len

ta

men

tenho que dize-lo
até o momento dele
arrepiar-me pêlo a pelo
para desfazer rimas
para que sejam minhas
coisas atraentes mínimas
essências extra-fatos
para alguns, casos
para outros, estragos




(ah nova norma ortográfica)

17 Janeiro, 2010

que com a gente nunca

Por isso agora a boca aberta, os olhos parados e focados em lugar algum a não ser no mundo que foi aquele tempo e aquela pessoa e aquele sorriso e aquele jeito e aquelas tardes e noites todas e aquela velha mania de achar que com a gente nunca.
E com uma seriedade imensa ou com um sorriso sincero, embora talvez preocupado, disse que sim. Era possível com a gente. Era possível com ele e não era minha descrença que faria diferença. Eu sem conseguir fazer nada me vendo ligar para ele e ouvir que é verdade com certeza. Então eu paro, ouço alguma coisa da cozinha, imagino que é ele advertindo-o sobre os riscos dos excessos do álcool, percebo que minha opção para dormir hoje é a hipótese de que amanhã, quando nos falarmos, ele vai dizer que quem sabe era coisa da cabeça e esses testes e eteceteraetal.
A vontade de fazer qualquer coisa, mesmo que infazível, de ver e de abraçar e dizer que mesmo sem sentir o gelado do chão nos pés, eu estou feliz.
E minha preocupação de como você tem sentido o chão nos seus.
Aquele quarto. aquela fumaça. Aquelas noites, quando nos fizemos nostálgicos como se hoje já fosse quarenta anos depois, se transformam em sóis sorridentes na parede amarelinha, rosa ou azul bebê. Transforma-se muita coisa, ele, a manta e o choro e o cuidado e todo aquele amor que eu sei: é o maior do mundo. E mais do que muitos, como poucos, ele é capaz de amar.

10 Janeiro, 2010

palavras

E com tanta leveza e beleza Ele me tirou todas

http://poesiaehcoisadepoeta.blogspot.com/2010/01/para-ela.html
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Fazer pé de meia pra velhice é uma besteira se você é adepto da bengala.


qualquer duplo sentido é puro dinamismo conceitual

05 Janeiro, 2010

Dias estranhos

Os dias estranhos estão chegando. Vozes e notas na cabeça e o Dostoiévski que não se cala. E um corpo se confunde com o piso da sala.

04 Janeiro, 2010

Aos que ficam em silêncio

cabe-lhes o nada após dois pontos

amado ano

Defenestraste-me, meu amado ano, velho, não sei se posso lhe dizer. Apesar de triste, gritou-me que me ama e eu que te amei. Gritou-me que você não era somente um dia, nem ao menos alguns reles meses. Você era um Ano, disse de boca cheia, enquanto eu me despedia de você completamente bêbada e consciente. Defenestraste-me quando meus olhos encantados pelos fogos artificiais se fecharam e meu hipotálamo não suportou o vento de verão.
Lembro-me que você, ano querido, disse em despedida para eu aproveitar meu novo amor, que eu fosse feliz com ele ao menos por mais tempo do que fui com você. Acho pouco provável. Contudo levo de você tudo, e não é pouco, que foi bom. As leituras, as expressões e as paixões.
Ironicamente, ano, defenestraste-me sem mágoas, nem eu de você, nem nós de nossa categórica felicidade. Me disse também alguns oxalás iemanjás e que na despedida do próximo eu não tenha sorvido tanto álcool a ponto de.

27 Dezembro, 2009

Iracema você atravessou na contra mão

E foi que à beira do casamento vem um carro e pincha ela no chão. Parece Iracema, que Adoniran fez só guardar suas meias e sapatos por ter perdido seu retrato. E foi que à beira da rua ela se viu nua esmigalhada mas já era tarde tarde. Tarde pra entrar de branco na igreja, veja, quando ela já se via toda vermelha. E o chão vermelho e quente, sente que lhe queima a cara, as costas e o lado e o que era aquele escuro vindo lindo e engolindo toda a árvore verde e a moça de vestido amarelo caramelo que ela sarreou antes em mente. Ficando escuro escuro até virar coisa da cabeça lá no fundo no fundo do sub inconsciente inconsistente. Até parecer sonho. Até ficar pouco claro ao ponto tonto de lhe parecer outra língua. Até não sentir a língua e o salto dela quente de repente no asfalto.

24 Dezembro, 2009

Só natal

pra me fazer acordar de bom humor

23 Dezembro, 2009

duas

Eu tento parar de comer e ela tenta parar de fumar. Ela me inveja porque cigarro eu fumo às vezes, mas não me apetece. Eu a invejo porque comida ela come, mas não aprecia. Sorte minha que fico a mordiscar os ossinhos dos seus quadris. Sorte dela que eu não lhe cerro os maços.

22 Dezembro, 2009

Mania

essa mania eu te amo
essa mania de ligar
todos os dias pra perguntar sobre ele. O dia. todo ano.
Essa mania de natal, peru choro e coisa e tal.
essa coisa ilegal de ano novo
esses fogos no céu e eu te amo na terra
sempre outra vez, só pra evitar o denovo



... mas fica sempre tão igual.

12 Dezembro, 2009




Ela é uma diva.
Eu vou escrever um livro, ele disse antes de soprar a fumaça do TE. Ele ia, ela sabia. Porque aquela pretensão despretensiosa tinha um caráter novo baiano, e o pouco que ela sabia sobre era suficiente para que visse o nome dele abaixo do título de um livro de sua prateleira.

11 Dezembro, 2009

dia de chuva

Não, não.
Coisa de dia de chuva mesmo. Preguiça, sono, abre a geladeira, fecha a geladeira e chaveschapolim.
Não é romantismo nem depressão. é o cinza mais lindo que eu já vi brilhando lá fora.
a preguiça escondida debaixo do travesseiro que eu fui buscar. a geladeira, a chave e o chaves. todo mundo olhando a água escorrer do ceu sorridente. a porta enchavada. da geladeira. o chaves e o chapolim.







e sem blablablá

09 Dezembro, 2009

:

espero um dia transformar meus pretextos em pré textos, tão habilmente textuais quanto o.

07 Dezembro, 2009

Fim dos dias

- Tem dois
- Quê?
- Tem dois, . Tem dois ali na janela.
- Na verde ou na branca?
- Na rosinha salmão, ali perto do canteiro.
- Ah. Safados ?
- ?
- Olha lá, nos beijos e abraços.
- É, uai. Pra que ser diferente?
- Sei lá. Essa troca de baba é muita... muita maldade com o pobre Juca.
- Ara. E as pinga toda todo dia?
- Pinga toda todo dia?
- É, pinga toda todo dia minha fia. Bafo de cachaça do marido todo dia faz a muié oiá do lado e perceber os... os.. os feromônimo dos otros homem... entende?
- Feromo..nomino?
- FEROMONIMO!
- Que isso?
- É o que deixa as muié no ponto. Coisa de cheiro, pele.
- ...
- Que foi.
- Zuzinha, cê anda vendo novela demais.
- Pucadiquê?
tremelicando na cadeira de balanço.
- Seu cheeeeiro!! uuuii. Sua pele!!
- ... ... ...
- Tá olhando feio por que?
- Que isso Maria. Parece que tá com comichão.
- Ara. Só te imitando pra te explicar.
- Ce tá me explicando pra me confundir.
- ...
- Olha lá, olha lá. Que abraço bonito.
- Parece amor, Zuzinha.
- Nada. Amor tá fora de moda, fia. É só... tesão.
- TESÃO, Zuzinha? De onde cê tirou essa safadeza?
- Das entranhas, uai. De onde mais?!
- Menina Zuzinha do céu!
- Ah vai. Vai dizer que naquelas noite escura, que cê fingia que tava dormindo, não sentia um comichãozinho enquanto o Zé te bulinava?
- Creio em Deus pai, Maria. Cê tá loca?
- ?
- Eu tive 32 anos de casada e nunca dei um beijo na boca!

aquele rosto assustado da Zuzinha era indescritível em palavras.

- Criei meus 5 filhos sob os olhos do padre.
- ...
- Enterrei meu marido e uso preto desde lá.
- E donde cê tirou que tem que ser assim?
- Minha mãe . Minha nona, minha bisa. Cê que devia seguir o exemplo dessas santa mulheres.

- Acha, Maria. Cê tá precisando parar de ir na igreja e ir no forró da terceira idade.
- Creioemdeuspai Zuzinha. Cê que tá precisando parar de ver novela.
- Cê que tá precisando de um vibrador.
- Eu já tenho, Zuzinha.

quanto tempo uma pessoa demora para ultrapassar um obstáculo cognitivo?
Demorou exatamente isso mesmo.

- QUÊ? Você já tem?
- , todo mundo tem. Mas eu não gosto muito não.
- POR QUE?
- Porque não dá pra ouvir se eu lavando roupa. Gosto quando faz barulhão mesmo.
- Barulhão, Maria? Barulhão?
- É . Quer o número?
- Número?
- Do meu vibrador
- Não Maria, eu tava brincando. Que semvergonhice, eu lá quero saber o nú...
- Ah vá, todo mundo tem hoje em dia, num é pecado. Anota aí. 97 33 03 03
- ...

a cara da Zuzinha era plena falta de palavras.

- Que susto, Maria.
- , por que?
- Achei que o mundo tava desandado.
- Que isso. A gente tem que se cuidar porque o apocalipto tá chegando
- A poca o que?
- Quando DEUS vai voltar pra terra e julgar TODOS nós. Vai ter ... ter... choro e ... como chama?
- O que?
- Tipo aquilo que o Zé fazia cos dente enquanto me bulinava.
- Ranger de dentes.
- É, é.. isso aí. Vai ter choro e ranger de dentes.


- ...
- ...


- Esses dois nesses amassos.
- Calor né.
- É.
- É o buraco na camada dionísio.
- É. As fumaça de carro tão acabando com o dionísio!
- Fim dos dias.
- Fim dos dias.

03 Dezembro, 2009

mais do mesmo

Escrever:
- Escrever...
Escrever.

em cada ponto final estou eu, boca aberta, em um grito sem som.